Congregação Santíssimo Sacramento

Província Nossa Senhora de Guadalupe

100 anos da presença Sacramentina no Brasil

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro celebra, em 2026, o centenário da Obra da Adoração Perpétua e da chegada da Congregação do Santíssimo Sacramento ao Brasil, marco histórico para a vida eucarística da Igreja no país. Fundada no dia 3 de maio de 1926, na Igreja de Sant’Ana, no Centro do Rio de Janeiro, a iniciativa foi idealizada pelo então arcebispo coadjutor, Cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, que, após a morte de Dom Joaquim Arcoverde, assumiu como arcebispo titular, governando a arquidiocese entre 1930 e 1942.

A Obra da Adoração Perpétua, iniciada na Igreja de Sant’Ana — hoje Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua —, foi confiada à Congregação do Santíssimo Sacramento, também conhecida como Padres Sacramentinos. A congregação foi fundada em Paris, em 1856, por São Pedro Julião Eymard, com o carisma centrado na vivência, celebração e adoração da Santíssima Eucaristia.

A programação comemorativa inclui Santa Missa em ação de graças, que será presidida pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, no 5º Domingo da Páscoa, dia 3 de maio, às 10h, reunindo membros do clero, paroquianos e adoradores e adoradoras para recordar a trajetória centenária da obra.

Segundo o pároco e reitor do santuário, padre José Laudares de Ávila, as celebrações jubilares tiveram início ainda em 2025, marcando o caminho até a data histórica. “Desde o dia 3 de maio de 2025, iniciamos as celebrações do centenário da Obra da Adoração Perpétua com a chegada da Congregação do Santíssimo Sacramento no Brasil. O centenário do início da Obra da Adoração Perpétua e a chegada da congregação é um momento forte para todos nós relembrarmos tantas décadas de homens e mulheres, dia e noite, se revezando diante do Santíssimo Sacramento, solenemente exposto na Igreja de Sant’Ana”, destacou.

O sacerdote também recorda o desejo missionário que motivou a implantação da obra na capital fluminense, ressaltando a identidade espiritual dos religiosos sacramentinos. “Uma coisa muito interessante, que talvez a maioria dos católicos do Rio não conheça, é que foi desejo de Dom Sebastião Leme fundar a Obra da Adoração Perpétua aqui no Rio de Janeiro e confiá-la aos padres sacramentinos. A Congregação do Santíssimo Sacramento, fundada por São Pedro Julião Eymard, têm a Santíssima Eucaristia como centro da vida e da espiritualidade e assumem a missão de celebrar, viver e adorar Jesus na Santíssima Eucaristia”, afirmou.

Igreja de Sant’Ana, sede da Obra de Adoração Perpétua.

A escolha da Igreja de Sant’Ana, no Centro do Rio de Janeiro, como sede da Obra da Adoração Perpétua é parte fundamental da história que marca o centenário da iniciativa na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Idealizada por Dom Sebastião Leme, a definição do local passou por desafios e alternativas antes de se consolidar como referência permanente de adoração eucarística na cidade.

Segundo o pároco e reitor do santuário, padre José Laudares, a principal dificuldade inicial foi encontrar um espaço adequado para acolher a obra e sua dinâmica contínua. “O grande problema, depois de tantos preparativos, era encontrar uma igreja que pudesse acolher a obra e também as dependências para a residência dos padres e dos adoradores que pernoitavam para a adoração noturna”, explicou.

A primeira opção considerada foi a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Glória, devoção muito cara a Dom Sebastião Leme. No entanto, o espaço não comportava o crescente número de fiéis. “A igreja era muito pequena, pelo grande número de adoradores, de fiéis, homens e mulheres que cada dia aumentavam para vir adorar nosso Senhor no Santíssimo Sacramento”, destacou o sacerdote.

Diante disso, surgiu o projeto de construção de um grande santuário na Esplanada do Castelo, área que se abria após a demolição do Morro do Castelo. Contudo, a urgência em iniciar a obra levou Dom Sebastião Leme a buscar uma solução imediata. “Ele tinha pressa para trazer a congregação e fundar a Obra da Adoração”, afirmou padre José Laudares.

Foi então que a Igreja de Sant’Ana apareceu como alternativa viável, capaz de acolher um grande número de fiéis. Inicialmente definida como sede provisória, entre 1926 e 1933, a igreja passou a abrigar a Obra de Adoração Perpétua enquanto se aguardava a construção do novo santuário. Com o passar dos anos, porém, os planos se transformaram.

“Deus quis que a Igreja da Senhora Sant’Ana — avó de Jesus, mãe de Nossa Senhora, esposo de São Joaquim e copadroeira da arquidiocese — se tornasse o Santuário do Coração Eucarístico de Jesus”, afirmou o pároco, ressaltando o caráter providencial da escolha. A mudança definitiva ocorreu em 1933, quando a Mitra Arquidiocesana, sob a presidência de Dom Sebastião Leme, firmou acordo com a Congregação do Santíssimo Sacramento, confiando à instituição a Igreja de Sant’Ana e a missão de manter a obra de adoração.

“A partir de 1933, a Mitra Arquidiocesana do Rio de Janeiro firmou um contrato com a Congregação do Santíssimo Sacramento, cedendo a Igreja de Sant’Ana para a obra da adoração”, explicou o sacerdote, recordando que a congregação assumiu também a paróquia e o santuário, garantindo a continuidade da missão.

Assim, o que começou como solução provisória se tornou definitivo. “E assim, o que era provisório se tornou definitivo”, disse padre José Laudares, e concluiu: “A Igreja de Sant’Ana se tornou um dos principais centros de adoração eucarística do país, mantendo viva, há cem anos, a presença orante diante do Santíssimo Sacramento no coração do Rio de Janeiro.”

Cardeal Sebastião Leme, o apóstolo adorador.

Na caminhada centenária da Obra da Adoração Perpétua, a figura de Dom Sebastião Leme se destaca não apenas como fundador da iniciativa, mas como um verdadeiro apóstolo da Eucaristia. A espiritualidade eucarística do arcebispo permanece viva na Igreja de Sant’Ana, onde seus restos mortais estão sepultados, em um gesto profundamente simbólico ligado à sua missão.

Segundo o pároco e reitor, padre José Laudares de Ávila, a presença de Dom Sebastião Leme no interior do templo reforça o caráter espiritual do local. “A Igreja de Sant’Ana é uma igreja especial. Por ter os restos mortais de Dom Sebastião Leme, ele que foi o idealizador do Santuário de Adoração Perpétua. O próprio idealizador quis ficar ali também presente até o final dos tempos como testemunho de adoração”, afirmou.

O sacerdote explica que a decisão de Dom Sebastião Leme de ser sepultado na nave da igreja, pouco antes do presbitério, revela sua profunda identificação com a prática da adoração eucarística. “Ele, quando estava já chegando ao fim da sua vida, manifestou o desejo de ser sepultado na Igreja de Sant’Ana e ser pisado pelos adoradores. Ele não quis nenhum monumento, era no chão mesmo, em frente ao altar”, destacou. Atualmente, o local é protegido por vidro, permitindo que os fiéis passem sobre o túmulo enquanto se dirigem para receber o Santíssimo Sacramento.

Para padre José Laudares, esse gesto expressa de forma concreta a missão assumida por Dom Sebastião Leme. “Os adoradores caminham sobre ele, porque ele quer levar os adoradores para Nosso Senhor”, explicou. A imagem reforça a ideia de que o arcebispo continua, mesmo após a morte, conduzindo os fiéis à adoração de Jesus presente na Eucaristia.

A devoção de Dom Sebastião Leme à Eucaristia marcou toda a sua vida e ministério. Influenciado pelo contexto eclesial de seu tempo, especialmente pela figura de São Pio X, conhecido como o “Papa da Eucaristia”, ele se aproximou da Congregação do Santíssimo Sacramento, fundada por São Pedro Julião Eymard, cuja espiritualidade é centrada na adoração ao Santíssimo Sacramento. Esse vínculo foi determinante para a implantação da obra no Rio de Janeiro.

Antes da fundação, Dom Sebastião Leme promoveu iniciativas para preparar os fiéis, como o Congresso Eucarístico de 1922, realizado no contexto do centenário da Independência do Brasil, além de mobilizar associações religiosas da época. Em 1926, ao inaugurar a Obra da Adoração Perpétua na Igreja de Sant’Ana, fez uma oração que expressa sua confiança e compromisso com a continuidade da adoração: “Tu, Senhor Jesus, ficarás exposto dia e noite aqui neste santuário até o fim dos tempos, porque eu te prometo que os brasileiros estarão aqui ajoelhados neste santuário dia e noite até o fim dos tempos.”

O testemunho pessoal de Dom Leme também se manifestava em sua rotina. “Todas as manhãs, estando no Rio, ele vinha ao santuário e passava uma hora em adoração”, recordou o pároco, acrescentando uma frase que se tornou emblemática: “É em Sant’Ana que eu resolvo os problemas da arquidiocese.”

Ao completar cem anos, a Obra da Adoração Perpétua reafirma o legado de seu fundador, cuja vida foi marcada pela centralidade da Eucaristia. “Dom Sebastião Leme é um exemplo para nós de Apóstolo da Eucaristia. Ele assumiu plenamente a missão de adorar e fazer adorar”, concluiu padre José Laudares.

A missão é adorar e fazer adorar.

A celebração do centenário da Obra da Adoração Perpétua não tem um olhar voltado apenas para a memória, mas também para o futuro da missão. No Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua, na Igreja de Sant’Ana, no Centro, a data tem sido marcada por uma mobilização especial para a renovação do número de adoradores, diante dos desafios enfrentados nos últimos anos.

Segundo o pároco e reitor, padre José Laudares, fatores como a pandemia e as mudanças no perfil populacional da região impactaram diretamente a participação dos fiéis. “Nós tivemos um grande problema com a pandemia, porque muitos adoradores faleceram, e o centro do Rio também mudou, com a diminuição da população residente”, explicou. O sacerdote ressalta que a realidade atual exige uma ação missionária mais intensa: “Estamos na campanha de ir ao encontro das pessoas, mesmo distantes, para vir adorar e também assumir a missão de fazer adorar.”

A iniciativa conta com o apoio do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani, que tem incentivado a revitalização da obra. O objetivo é garantir a continuidade da adoração perpétua, prática que acontece ininterruptamente há cem anos no local.

De acordo com padre José Laudares, tornar-se adorador é um caminho aberto a todos os fiéis. “A pessoa, para ser adorador ou adoradora, basta ser católico e querer participar de uma comunidade, com maior atenção à oração, ao conhecimento da fé e à vivência dos sacramentos”, afirmou. A prática da adoração é estruturada em momentos de oração que ajudam o fiel a aprofundar sua relação com Deus. “Diante do Santíssimo, nós temos quatro momentos: contemplar, agradecer, reconhecer que somos pecadores e suplicar”, explicou.

A espiritualidade da adoração também acompanha o calendário litúrgico da Igreja, favorecendo a vivência dos tempos fortes, como Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, além de momentos específicos de oração, como pelos falecidos e a devoção mariana. Essa integração reforça o caráter de continuidade entre a celebração da Eucaristia e a adoração ao Santíssimo Sacramento.

Como parte das comemorações do centenário, foi lançada uma campanha para novos adoradores, com um lema que expressa o dinamismo missionário da obra. “Como adorador, a minha missão é adorar e fazer adorar nosso Senhor. Cada adorador deve trazer um novo adorador”, destacou o pároco. A proposta é que os participantes acompanhem os novos membros durante um período de formação, que pode durar até um ano.

Ao final desse processo, os novos adoradores são convidados a assumir publicamente seu compromisso em uma celebração específica. “Temos uma liturgia especial de consagração, onde o adorador assume a missão de adorar e fazer adorar”, explicou padre José Laudares.

A adesão à adoração perpétua também se organiza de forma prática e acessível. Os interessados podem procurar diretamente a paróquia ou ser apresentados por outros adoradores. “Muitos adoradores nos apresentam novos adoradores, criando uma corrente de fé e compromisso”, afirmou o sacerdote. Cada participante pode escolher o dia e o horário mais adequado para sua rotina, sendo que a adoração noturna é reservada aos homens, enquanto durante o dia a participação é de homens e mulheres.

Além da oração individual, a Obra da Adoração Perpétua promove momentos comunitários ao longo do ano, fortalecendo a formação espiritual e a convivência entre os participantes. Entre eles estão retiros semestrais, realizados no terceiro domingo de abril ou maio e no mês de novembro, encontros mensais de formação e celebrações eucarísticas específicas para os adoradores.

“É um dia de presença no santuário, de formação, convivência e renovação da espiritualidade”, destacou padre José Laudares sobre os retiros. Já os encontros mensais e as celebrações ajudam a manter viva a comunhão entre os membros da obra, mesmo diante das dificuldades de participação ao longo da semana.

Ao completar cem anos, a Obra da Adoração Perpétua reafirma sua importância como espaço de oração contínua e de encontro com Cristo na Eucaristia. Mais do que recordar o passado, a campanha para novos adoradores aponta para o futuro, buscando garantir que a presença orante diante do Santíssimo Sacramento permaneça viva no coração do Rio de Janeiro.

“Manter este santuário é um desejo de toda a Igreja”, concluiu o pároco, reforçando que a missão de adorar e fazer adorar continua sendo o eixo central da obra.

Texto: Carlos Moioli

Fonte: Arquidiocese de São Sebastião de Rio de Janeiro