O Dom de Si: Herança Espiritual para a Família Eymardiana – Artigo escrito pelo noviço Ir. Lucas Venâncio, sss.
Entre os dias 26 e 29 de maio, o padre Elibien Joseph, sss, da Província João XXIII, assessorou de forma virtual uma formação para os noviços do 2° ano sobre o tema: “Aprofundamento do Dom de Si pelo Voto da Personalidade” e complementou com subtema “Padre Eymard: um itinerário de vida fundamentado na escuta e na herança espiritual do Dom de Si”. A formação contribuiu significativamente para o Noviciado Sacramentino da Conferência das Américas ao aprofundar a espiritualidade Eucarística legada pelo São Pedro Julião Eymard.
Durante os encontros, padre Elibien apresentou o Pe. Eymard como um verdadeiro peregrino eucarístico, cuja vida revela a essência do mistério da Eucaristia: a entrega total de si mesmo. Tornando-se para a Igreja um grande símbolo eucarístico, São Pedro Julião Eymard teve sua trajetória iluminada pelo Cristo que se fez doação em tudo. Ao longo da caminhada de Eymard, percebe-se um progressivo amadurecimento humano e espiritual que o conduziu a um encontro profundo com Jesus Eucaristia, marcado pela escuta, disponibilidade e serviço.
O homem de Deus que viveu na França do séc. XIX (1811-1868) nascido em 4 de fevereiro de 1811 e batizado no dia seguinte, foi educado em uma família cristã fervorosa, sendo introduzido desde cedo na vida de fé, o batismo foi o primeiro passo rumo ao Dom de Si, traçando desde então sua caminhada eucarística. Depois de ordenado sacerdote na diocese de Grenoble, exerceu com amor seu ministério, destacando-se pelo zelo pastoral e intensa vida espiritual. Inicialmente influenciado por uma espiritualidade rigorista, mais viveu posteriormente uma forte experiência espiritual no Rochedo de São Romão, que transformou sua compreensão de Deus, conduzindo-o de uma espiritualidade penitencial centrada no sacrifício para uma espiritualidade do amor, essa mudança transformadora torna-se base para sua experiência de entrega total, dom de si. Como afirmava o próprio Eymard: “Para amar a nosso Senhor, é preciso entregar-se a Ele como Ele se entrega a nós; é preciso amá-lo como Ele nos ama. O maior dom que se pode fazer a nosso Senhor é entregar-lhe sempre a própria pessoa” (PS 602, 1).
Padre Eymard viveu vários momentos de manifestação de Deus, recebendo graças que são alicerce para sua vida eucarística, dentro delas destaca-se duas, que colocaram Eymard diante do projeto de Deus para sua vida e vocação. Uma importante graça em seu itinerário espiritual foi a chamada “graça de profunda atração eucarística”, vivida durante uma procissão de Corpus Christi em 1845, quando se sentiu profundamente atraído o pelo amor de Cristo presente na Eucaristia. Uma outra graça mais conhecida como graça da fundação é a de Fourvière, experiência que despertou nele a missão de anunciar o Reino Eucarístico, levando-o posteriormente a concretar a fundação da Congregação do Santíssimo Sacramento para viver o pleno o mistério da Eucaristia.
Nesse caminho rumo ao Dom de Si, destaca-se também o projeto do Cenáculo de Jerusalém. Eymard desejava conquistar o lugar da instituição da Eucaristia como sinal de renovação espiritual e social para a Igreja e o mundo do séc. XIX. Entretanto, as dificuldades políticas e religiosas impediram a concretização desse sonho. O fracasso externo, porém, tornou-se ocasião de amadurecimento interior, conduzindo-o à descoberta do “Cenáculo interior”, espaço espiritual onde Deus habita e transforma o coração humano. Essa experiência alcança seu ápice no retiro realizado em Roma de 25 de janeiro a 30 de março de 1865. Uma grande oportunidade para revisar todo o seu percurso de vida numa dinâmica marcada pela profunda oração, o discernimento e a vivência eucarística. Eymard compreende a necessidade de uma entrega radical a Cristo. Depois de uma longa caminhada, desde o batismo, Rochedo de São Romão, as graças eucarísticas, ele realizou o “Voto da Personalidade”, consagrando totalmente sua vida a Deus adotando o modelo da encarnação sob a fórmula Absque Sui Proprio: nada de si próprio, sendo tudo para a glória de Deus. Tal gesto expressa concretamente a perspectiva eucarística madura, isto é, uma vida que se torna doação permanente.
O Dom de Si torna-se, assim, a expressão máxima de sua espiritualidade eucarística. Trata-se de um contínuo processo de configuração com Cristo, marcado pelo esvaziamento de si mesmo para que Deus seja tudo em nós. Essa dinâmica pascal conduz da autossuficiência à confiança plena em Deus, do egoísmo ao amor oblativo, da busca de si à entrega total.
Dessa forma, a trajetória espiritual de São Pedro Julião Eymard revela uma profunda unidade entre Eucaristia, Cenáculo interior e Dom de Si. Sua herança espiritual permanece viva na Família Eymardiana como um convite permanente à transformação da própria vida em oblação contínua, à luz do Cristo que se entrega totalmente na Eucaristia. Por tanto, o Dom de Si foi a máxima vivida por Eymard, o discípulo é chamado a viver de tal modo que já não seja apenas ele quem vive, mas o próprio Cristo que vive nele “não sou eu que vivo como pessoa, mas é Cristo quem vive em mim” (Gl. 2, 20).
Ir. Lucas Venâncio, sss
Noviço de 2° ano
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
EYMARD, Pedro Julião. Retiro de Nemours às Servas do Santíssimo Sacramento e Retiro de Paris aos Religiosos do Santíssimo Sacramento. Tradução de Pe. Elibien Joseph, SSS. Lima: Província São João XXIII (Colômbia–Peru), 2026. Documento de circulação interna contendo fragmentos das Obras Completas de São Pedro Julião Eymard.















