Campanha da Fraternidade e a Ética do Caminho: uma entrevista com Pe. Marcelo

A Campanha da Fraternidade de 2020 convida os cristãos à uma reflexão sobre a presença do “outro” em nossas vidas, em busca de uma alteridade radical, resumida no lema “Viu, sentiu compaixão, cuidou dele”, baseado nas palavras de Jesus Cristo, conforme São Lucas.

Entrevistamos o Padre Marcelo Carlos da Silva, Superior Provincial da Congregação do Santíssimo Sacramento, para falar um pouco mais sobre a importância do tema da campanha deste ano.

Portal Sacramentinos: Vivemos um momento da história que nos leva a crer que as pessoas estão, cada vez mais, ensimesmadas, com gestos e ações que parecem invisibilizar o “outro”, em detrimento de desejos pessoais. A campanha da fraternidade de 2020 procura refletir e problematizar esse sintoma da sociedade contemporânea. O senhor poderia falar um pouco sobre isso?

Pe. Marcelo: No contexto em que vivemos hoje, do ensimesmamento, do centralismo do “eu”, na contramão do outro, da alteridade, a campanha da fraternidade nos apresenta um caminho de escuta, de visão e de ação em relação ao outro, porque a ética do bom samaritano, é a ética da alteridade. Ética esta que é despertada pelo outro que está em nosso caminho, e que ao contrário do ensimesmamento, do individualismo e egoísmo, nos ensina a sair de nós mesmos, de mudar a rota de nossas vidas para olhar o outro e agir pelo outro. Então, esse é o grande convite da Campanha da Fraternidade, ou seja: que a nossa vida não seja pautada somente no “eu” – nesse ego que muitas vezes é instintivo, individualista e narcisista -, mas que, de fato, a nossa fraternidade se dê a partir desse outro absoluto, que faz parte do nosso caminho e que por vezes nos desconcerta, nos descontrói e nos ensina o verdadeiro caminho da humanidade.

Portal Sacramentinos: A alteridade parece ser uma palavra urgente no tempo em que vivemos. As palavras de Jesus Cristo, segundo São Lucas, que representam o lema da campanha deste ano, parecem dizer isso. Dessa forma, como a campanha da fraternidade vincula-se à ideia de alteridade, no sentido de cuidado e reconhecimento do outro?

Pe. Marcelo: A campanha da fraternidade se vincula à alteridade, na medida que nos propõe uma ética do caminho, cuja rota que dirige os nossos passos não seja somente o “eu”, mas um outro desconhecido que, quando se põe à nossa frente, ele nos pede que o enxerguemos e que o sintamos, e que por vezes solicita que nossa ação seja de compaixão. Então, esse trabalho da campanha da fraternidade, vinculado à campanha da fraternidade, estrutura-se nessa ideia da ética bíblica, da ética da palavra de Deus, cujo mandamento maior é amar a Deus e ao próximo como a ti mesmo. Ora, uma religião que tem o mandamento do amor, como um mandamento ético, é centrada nesse outro que faz parte da nossa existência.

Portal Sacramentinos: Quais ações os Sacramentinos estão realizando, tendo como referência o tema da campanha?

Pe. Marcelo: Às vezes, a campanha da fraternidade vem realçar aquilo que já se faz, ou seja, ela vem dar sentido e aprofundar aquilo que já se faz. Em nossas comunidades, não dá para celebrar a Eucaristia sem que nós enxerguemos o outro, sem que possamos reconhecer o outro, pela via da compaixão. A dimensão social, ecológica e da comunhão comunitária eucarística, fazem parte de uma perspectiva ética. Enquanto ações concretas nós temos várias realidades. Por exemplo, a Igreja da Boa Viagem trabalha, hoje com várias pastorais sociais, como a “Casa de Acolhia ao Migrante e ao Refugiado – Casa Boa Viagem”, a Pastoral do Migrante, a Pastoral do Idoso, a Pastoral da Saúde e a Pastoral da Cultura. Além disso, há grupos de evangelização que nos ajudam a ver, ouvir e enxergar o outro, porque ao longo do ano, essa ética da campanha da fraternidade se faz presente no próprio ano litúrgico.
Vale destacar ainda a “Farmácia Comunitária”, a “Obra do Berço” para gestantes carentes e o “Núcleo de Acolhida e Articulação Solidaria (NAASP) que tem como centro fundamental o voluntariado, que só de psicólogo temos hoje mais de trinta atendendo o público mais carente. Temos também, em Santiago (Chile), uma grande referência de acolhida aos refugiados, aos migrantes e aos mais carentes. E assim há, em vários lugares, projetos sociais que iluminam essa realidade da alteridade.

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